segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Como escavar um abismo.

Depois de passar um fim-de-semana enterrado na sala a ler apontamentos e a quebrar leituras com séries nunca vistas, vi-me como que a escavar um abismo...

Decidi então pegar no livro de poemas do Fernando Ribeiro, Como Escavar Um Abismo, e recorda-lo...

Pode soar a irónico, mas é engraçado pensar que a pessoa que me ofereceu o livro, uma ex, tirou-me de uma espécie de ninho e deixou-me à sorte de aprender a escavar um abismo... Na altura não conseguía ver as vantagens disso, mas assim que o nevoeiro se levantou e olhei em volta, foi como que um renascer, um voltar ao que outrora fui, sem voltar a ser o que fui. Cresci e vinguei, e nisso me fundei.

Dos 25 poemas que compõem este belo manual de escavação, deixo-vos aqui o que mais me toca, talvez por uma nostalgia... talvez por uma memória que insiste em não desaparecer, talvez por nada, ou por tudo...

Queres fazer terror comigo?

Quando chegar a casa
e vir os teus cigarros alma
massacrados no cinzeiro esmeralda -
vou-te copiar.

Depois de arrumar a comida
barata e estragada - que consegui arranjar.
De pousar as armas e
cumprimentar os leões.
Vou-me aproximar
devagar...
Num silêncio de morte
que só tu conheces e
podes ouvir.

Vais fingir que sonhas.
Ou talvez sonhes como desculpa
para estares refugiada
da tua grande vida que nasce só aos poucos,
nunca à tua velocidade.

Vou-me aproximar.
Vais-me pedir para mergulhar.
Vou-te fazer a vontade,
dizer-te bem baixinho...
Queres fazer terror comigo?

Tu respondes que sim.
E eu sei que vou conseguir.

Fernando Ribeiro